Biblioteconomia de Babel

23.6.05

Serviço de referência via SMS

O google, em seu plano para dominar o mundo, agora tem um serviço de pesquisa via SMS. Se você quiser saber onde fica aquela pizzaria, comparar preços de produtos nas lojas com seus equivalentes online, saber qual rua pegar para ir de um ponto A a um ponto B, obter a definição para uma palavra, o autor de um livro, os livros de um autor ou saber qual é a previsão do tempo para hoje, basta enviar uma mensagem de celular para o google que ele te responde! Mas é só nos states por enquanto. :(

Fico pensando em como este tipo de serviço poderia ser interessante no setor de referência de uma biblioteca. A Altarama, uma empresa australiana, já oferece este serviço para bibliotecas. O usuário envia a mensagem que então é convertida para o formato de e-mail e enviada para o endereço da bibioteca, a resposta do bibliotecário é novamente convertida para o formato SMS e enviada de volta ao usuário. Qualquer dúvida, manda um torpedo que o bibliotecário responde!
[Via LJ Tech Blog]

Enquanto isso no brasil...

15.6.05

Guia jurídico para blogueiros - Audio books

A Eletronic Frontier Foundation (EEF) lançou o EEF: Legal Guide for Bloggers, um manual jurídico, baseado nas leis norte-americanas, para orientar a conduta da blogosfera. O texto aborda questões como a difamação, privilégios de jornalistas, fontes de informação restritas, citações, privacidade e propriedade intelectual entre outros tópicos legais de interesse da comunidade blogueira. Seria bem interessante uma iniciativa dessas aqui no país das bananas!

A New York Public Library estará disponibilizando esta semana 700 audio books para download. Serão obras de ficção e não-ficção de domínio público. os arquivos de audio podem ser gravados em cd's, mas não tocarão em i-pods. Isso por que os arquivos terão um sistema de proteção contra cópias desenvolvido pela Microsoft (terão um prazo para expiração). No Brasil isso não faria muita diferença, mas nos EUA, onde o i-pod está bastente disseminado...
Fonte: Reuters

Wikitecas: possíveis usos para uma tecnologia revolucionária.

Que tal uma biblioteca onde os usuários escrevem as obras que compõem o acervo? Você percorre as estantes e em cada livro, periódico e obra de referência está lá o seu nome como co-autor. Naquele livro sobre o bibliotecário na sociedade da informação tem um capítulo de sua autoria, no livro de culinária tem uma receita de bolo que a sua mãe inventou, a definição do termo "Biblioteca" naquele dicionário é contribuição sua.

Soa estranho? Pois pode ser menos estranho do que parece!

Se na realidade material das bibliotecas as dificuldades editoriais impedem a manifestação coletiva de autoria, na realidade dinâmica da internet esses obstáculos simplesmente não existem. Muito pelo contrário, em oposição à grande dificuldade colaborativa do plano cartesiano, a estrutura fractal da web tem seguido uma clara tendência à colaboração.

Isso pode ser notado no desenvolvimento da blogosfera. Desde que surgiram os blogs a comunicação no mundo digital foi drasticamente alterada. De diários virtuais de adolescentes, eles passaram a ser considerados uma mídia independente e muitos são editados por jornalistas, cientistas, escritores, advogados, bibliotecários* e outros profissionais, muitas vezes em equipes. Em geral são blogs informativos, de opinião ou filtro e vem desempenhando o importante papel de observatório da imprensa e de divulgação de idéias e assuntos pouco abordados na mídia mainstream.

Muitos pesquisadores utilizam blogs para comunicar suas idéias. O que, numa comparação com a linguagem acadêmica, pode ser considerado a literatura cinzenta do universo virtual. Também tornou-se comum uso de blogs na comunicação institucional. Empresas de software utlizam blogs para divulgação das atualizações de seus produtos (esse tipo de blog tem sido muito usado como fonte de informação para a imprensa) e mesmo os diários virtuais de adolescente se desenvolveram e hoje em dia existe uma imensa rede de blogs literários que em alguns casos acabam publicados como livros.

Essas comunidades seguem naturalmente padrões de colaboração: a maioria dos blogs tem links para comentários, onde qualquer internauta pode registrar sua opinião, que fica visível aos visitantes do blog; As seções de links externos em geral conectam outros blogs sobre o mesmo assunto, criando assim categorizações naturais e comunidades, as blogosferas.

Mas os blogs não são a única estrutura de colaboração na web. Um novo conceito vem ganhando cada vez mais destaque por sua capacidade colaborativa, os wikis.

Os wikis elevaram a possibilidade de colaboração na internet, da forma passiva, adotada pelos blogs, para a forma ativa. Com eles é possivel não somente criar e editar páginas, mas também editar páginas criadas por outras pessoas, alterando diretamente o texto e discutindo as alterações. O principal wiki em atividade é a Wikipédia, uma enciclopédia virtual criada e atualizada pelos próprios usuários. A wikipédia já é a enciclopédia mais extensa da atualidade, com verbetes em mais de 80 idiomas.

No entanto, são justamente os fatores que os distinguem das outras iniciativas de colaboração que geram as principais críticas a seu respeito. Os wikis diluiram o sentido da autoria. Seu conteúdo é inteiramente coletivo e muitas vezes anônimo. Isso acaba comprometendo sua confiabilidade como fonte de informação.

A discussão sobre a validade da wikipédia como fonte de informação é prolífica e apresenta pontos de vistas muito interessantes sobre as tendências da web. Eu gostaria de destacar dois artigos sobre esse assunto, publicados em blogs de bibliotecários norte-americanos e que representam bem as duas principais linhas de argumentação envolvidas nessa discussão. O Free Range Librarian, de Karen Schneider e a resposta de Luke Rosenberger no Librarian By Request (lbr).

Enquanto um toma por base a falta de confiabilidade da Wikipédia para não recomendar o seu uso como fonte de informação para pesquisa, o outro ressalta as possibilidades de seu uso para a educação dos usuários e o desenvolvimento de habilidades críticas, que progressivamente tornarão seu conteúdo mais confiável.

Dentro dessas perspectivas, os wikis vem se desenvolvendo rapidamente e já são usados internamente por empresas para formar bases de dados de sua documentação e fomentar a discussão dos processos. Outro uso interessante para os wikis é a documentação das impressões coletivas sobre eventos, como na experiência de Meredith Farkas com o wiki que desenvolveu para documentar a conferência anual da American Library Association (ALA).

As possibilidades de uso para os wikis são tão abrangentes quanta a sua dinâmica de atualização. Acredito que possamos fazer bom proveito desse conceito revolucionário, tanto para instigar a necessidade de critérios para a avaliação de fontes de informação, quanto para gerar boas discussões, expressar opiniões, e desenvolver a qualidade da colaboração na web.

E talvez algum dia seja possível ver nossos nomes estampados nas lombadas dos livros de uma biblioteca, mesmo que virtual.

_______
*Mais tarde eu escrevo mais sobre blogs de bibliotecários

2.6.05

O fim de Babel???

Dias antes deste blog ser publicado o Google promete acabar de vez com a Babel mundial. Ao menos é o que diz o blog Google Blogoscoped, que vem acompanhando os passos do gigante na rede. O projeto, que vem sendo chamado de Google Machine Translation Systems, tem uma meta ambiciosa: acabar com todos os problemas da tradução mecânica na Web!!

O sistema foi divulgado numa recente tour virtual pelo Google Factory, e apresentou resultados impressionantes, como em uma frase que traduzida do árabe para o inglês pelos softwares atuais ficou assim:
“Alpine white new presence tape registered for coffee confirms Laden” e no novo sistema saiu: “The White House Confirmed the Existence of a New Bin Laden Tape”.

O software é capaz de reconhecer estruturas gramaticais, figuras de linguagem e gírias em qualquer língua conhecida, e com um grau de automação que permitiu que programadores
traduzissem documentos em mandarim sem conhecer essa língua. O software compara e "aprende" com traduções humanas. O Google utilizou documentos das nações unidas para treinar sua máquina, num total de 200 bilhões de palavras. Basta fornecer um documento e sua tradução e dizer ao sistema "este está no idioma A e este no idioma B" que ele identifica as palavras e sua tradução e cria seu banco de dados.

As possíveis aplicações do novo conceito são tão modestas quanto o próprio projeto: mudar a experiência de navegação na web.
O uso mais óbvio é o que já vem sendo oferecido na tradução das paginas listadas nos resultado das buscas. O blogoscoped sugere que o novo sistema poderia ser integrado aos browsers, por meio de um plugin, para que qualquer página seja carregada no idioma do internauta ou ainda que o google pode desenvolver um browser próprio que contenha esta função. Nesta perspectiva, o internauta só saberia qual o idioma em que foi escrito o site em que está navegando por intermédio de um ícone ou do endereço do site.

As implicações sociais dessa nova tecnologia podem ser tão profundas quanto as previstas para o Google Print. Se o novo serviço for realmente capaz de traduzir de modo satisfatório, qualquer texto em qualquer idioma, teremos uma poderosa ferramenta na integração dos povos e das culturas, com a possibilidade de que as vozes que agora são caladas por essas barreiras se façam ouvir ou teremos uma igualmente poderosa arma de manipulação e dominação cultural?

Acredito que as duas coisas possam ocorrer, tanto a manipulação, quanto a integração. Mas vale notar que as possibilidades de integração são muito maiores. Leitores de língua inglesa raramente poderiam receber informações de uma fonte árabe ou coreana. Com essa possibilidade, torna-se desnecessário o intermédio
da imprensa, que, na maioria das vezes, não é somente informativo, mas, sobretudo, interpretativo. Sem atravessadores no processo da informação, cada um pode tirar suas próprias conclusões, diminuindo o potencial de manipulação da opinião pública em questões como a situação política do oriente médio. Isso sem falar no universo de omissões e supressões julgadas pouco importantes.

Ainda é muito cedo para prever todas as conseqüências desta inovação, mas, seja como for, teremos mudanças drásticas pela frente, e é melhor estarmos preparados. O fim de Babel está um passo mais próximo.